Tradutores

Jean Neel Karnoff

Criado em: 31 de Agosto de 2024
Editado em: 30 de Março de 2025

Adaptação de parte do artigo Criatividade e censura na tradução: um estudo de Consider the lilies of the field (1947), traduzido por Jean Neel Karnoff, publicado na Revista Graphos, vol. 24, n˚ 1, 2022.

 

Jean Campbell Neel, filha de Nida Neel e Paul Neel, nasceu em 26 de setembro de 1924 em Amherstdale, Virgínia Ocidental, Estados Unidos.[1] Mudou-se para Nova York ao conseguir a bolsa de estudos para estudar no Barnard College (Ayer, 2013). Seu interesse por artes e línguas estrangeiras mostrou-se logo no início de seu ingresso no curso de Artes Liberais, em 1943,[2] ano em que se engajou como assistente de arte do Barnard Mortarboard yearbook [Anuário Mortarboard do Barnard] e obteve o primeiro prêmio recitando o poema em português Canção do Exílio, de Gonçalves Dias (1823-1864). A competição entre as faculdades aconteceu na Casa Hispânica, da Universidade de Columbia, que já organizara três competições de recital de poesia em espanhol, mas era a primeira vez em que a língua portuguesa estava sendo incluída.[3]

Jean Neel mostrou-se uma estudante engajada com as artes durante seus anos no Barnard. Executou uma capa para a revista literária chamada The bear, do Barnard,[4] teve suas pinturas expostas na sala Odd Study do Barnard Hall,[5] ganhou uma bolsa de estudos para o México e palestrou sobre a viagem em um evento da faculdade, ocasião em que pode mostrar as esculturas que trouxera de lá.[6] Na primavera [entre março e maio] de 1944, Jean Neel e Marcia Barishman foram contempladas com a Renoir Fellowship [Bolsa de estudos Renoir]. Ambas haviam planejado passar aquele verão [junho a agosto] na França, mas devido à situação na Europa em tempos de guerra, mudaram seu roteiro para o México, onde estudaram artes aborígines na Cidade do México, Moreha, Paxaca e Puebla.[7]

Os registros do endereço de Jean Campell Neel no anuário terminaram em 1945, quando se formou com a distinção magna cum laude.[8] Jean Neel ainda destacou-se como estudante antes da formatura, ganhando o George Welwood Murray Graduate Fellowship [Bolsa de estudos de pós-graduação George Welwood Murray] para 1945-1946 no valor de U$15.000,00, considerada uma espécie de honra acadêmica para as pessoas de maior destaque nas áreas de humanidades e ciências sociais.[9] Jean Neel então cursou a Escola de Estudos Internacionais Avançados na Johns Hopkins, em Washington DC.[10] Provavelmente após a conclusão desse curso casou-se com Dr. Eli Karnoff em julho de 1946,[11] usando o nome de casada, Jean Neel Karnoff, para assinar a única tradução que fez do português para o inglês Consider the lilies of the field. As ilustrações de Jean Karnoff apareceram em revistas de moda importantes como Esquire, Vogue, The New Yorker, Harper’s bazaar, Redbook, Town & Country, McCalls, além de jornais importantes de Nova York (Ayer, 2013). Nossa personagem deve ter atuado na área de ilustrações por um longo período, pois não há outros registros de livros escritos ou traduzidos por ela entre 1947, publicação de Consider the lilies of the field, e 1978, ano da publicação da sua próxima tradução.

O trabalho como tradutora do livro em português em 1947 foi a primeira experiência de Jean Neel Karnoff no mundo das letras. Somente mais tarde, em 1978, em parceria com Eileen Finletter, é que sua incursão no mundo das letras começou a ser mais constante, quando traduziu outro livro, dessa vez o título francês Des nommes comme nous (1976), de Henry Baruk, como Patients are people like us: the experiences of half a century of neuropsychiatry. Em 1989, novamente em parceria com Eileen Finletter, traduziu outro livro na língua francesa, de autoria de Basilius Besler, Klaus Walter Littger e Werner Dressendörfer para a língua inglesa como The Besler Florilegium: plants of the four seasons.[12] Essas duas traduções foram assinadas como Jean Ayer, sobrenome que adotou após o segundo casamento, dessa vez com Robert McCormick Ayer em 1953.[13] Em 1992, finalizou a pós-graduação em escrita criativa pela Universidade de Columbia (Ayer, 1995), com a escrita de uma coletânea de contos intitulada Button cottage: and other stories (1991). Seguiram-se mais três livros de sua autoria: Tales of Chinkapin Creek (2011), Tales of Chinkapin Creek volume II (2012) e Dead drunk (2013), até sua morte, ocorrida em 23 de agosto de 2013 devido a insuficiência renal.

Na introdução das duas primeiras coletâneas conhecemos um pouco sobre seus antepassados, mas somente em Dead drunk é que encontramos alguns detalhes da vida pessoal da escritora Jean Neel Ayer, que começara sua carreira como ilustradora assinando Jean Neel Karnoff. O romance Dead drunk é ambientado na costa do Maine e a morte inesperada de um dos ricos residentes locais leva a uma investigação policial, revelando a fachada de uma família disfuncional em uma comunidade ligada pela tradição. Jane Ayer havia escrito contos baseados no alcoolismo de seu ex-marido e as consequências nocivas para sua família que serviram de inspiração para esse romance, no qual a autora desenvolveu uma razão muito semelhante ao fim de seu casamento com Eli Karnoff. Parte do material de seu romance foi fundamentado na sua própria participação no Al-Anon[14] [Grupo de ajuda a familiares e amigos de alcóolicos] e em outros programas. Seu filho Robert Ayer, editor assistente de Dead Drunk, adicionou a voz de uma criança diante da instabilidade de seu pai, pois ele não passava de um adolescente nos últimos anos do casamento dos pais (Ayer, 2013).

 

__________

[1] National Archives and Records Administration (NARA). Department of Commerce. Bureau of the Census. Sixteenth Census of the United States: 1940; e https://www.ancestry.com.

[2] MORTARBOARD YEARBOOK. Nova York: Barnard College. Class of 1943, p. 94 e 150; MORTARBOARD YEARBOOK. Nova York: Barnard College. Class of 1945, p. 24 e 54.

[3] [s.a.]. Barnard girls win language contexts. Barnard bulletin, Nova York, v. 47, n. 42, 8 abr. 1943.

[4] [s.a.]. “Bear” to appear on Jake tomorrow. Barnard bulletin, Nova York, v. 49, n. 19, 18 dez. 1944.

[5] [s.a.]. Student artists exhibit works in Odd Study. Barnard bulletin, Nova York, v. 49, n. 30, 19 mar. 1945.

[6] [s.a.]. Fellowship winners to speak at tea. Barnard bulletin, Nova York, v. 49, n. 22, 13 fev. 1945.

[7] [s.a.]. Barnard to hear fellowship winners. Barnard bulletin, Nova York, v. 49, n. 20, 11 jan. 1945.

[8] MORTARBOARD YEARBOOK. Nova York: Barnard College. Class of 1945, p. 54; e [s.a.]. 29 Graduates receive honors. Barnard bulletin, Nova York, v. 49, n. 42, 5 jun. 1945.

[9] [s.a.]. Name seniors for Murray, Rice Awards. Barnard bulletin, Nova York, v. 49, n. 31, 5 abr. 1945; e [s.a.]. 13 Seniors win prizes award two fellowships. Barnard bulletin, New York, v. 49, n. 31, 5 jun. 1945.

[10] [s.a.]. Jean C. Neel is wed to former officer I: bride of Robert McCormick I. New York Times, Nova York, 20 dez. 1953, p. 69.

[11] BARNARD COLLEGE ALUMINAE MAGAZINE. New York: Barnard College, v. 36, n. 2. Natal de 1946, p. 16.

[12] As buscas no Worldcat.org apontam que o livro foi escrito originalmente no alemão e traduzido para o francês, versão que foi usada por Finletter e Ayer para verter o texto para o inglês.

[13] [s.a.]. Jean C. Neel is wed to former officer I: bride of Robert McCormick I. New York Times, Nova York,  20 dez. 1953, p. 69. De acordo com o artigo, o casamento aconteceu na capela da Igreja Presbiteriana da Avenida Madison. A noiva usava um vestido de seda azul e carregava um buquê de violetas e lírios do vale. Para a lua de mel, o casal escolhera ir à Suíça

[14] Informações adicionais disponível em: https://al-anon.org/

 

Traduções

BARUK, Henry. Patients are people like us: the experiences of half a Century of neuropsychiatry. Tradução Eileen Finletter e Jean Ayer. Nova York: Morrow, 1978.  

BESLER, Basilius; LITTGER, Klaus W.; e DRESSENDÖRFER, Werner. The Besler Florilegium: plants of the four seasons. Tradução Eileen Finletter e Jean Ayer. Nova York: Harry N. Abrams, 1989. 

VERISSIMO, Erico. Consider the lilies of the field. Tradução Jean Neel Karnoff. Nova York: MacMillan Company, 1947.

 

 

Produções bibliográficas

AYER, Jean. Always welcome! Always plenty! Appalachian heritage. University of North Carolina, v. 23, n. 3, Summer 1995, p. 39-43. Disponível em:  https://doi.org/10.1353/aph.1995.0074. Acesso em: 18 nov. 2021.

AYER, Jean. Button cottage: and other stories. Dissertação (Master in Fine Arts [Mestrado em Belas Artes]). Columbia University, Nova York, p. 165, 1991.

AYER, Jean. Tales of Chinkapin Creek. Lexington: Chinkapin Publishers, 2011.

AYER, Jean. Tales of Chinkapin Creek volume II. North Charleston: CreateSpace Independent Publishing Platform, 2012.

AYER, Jean. Dead drunk. North Charleston: CreateSpace Independent Publishing Platform, 2013.

 

 

Como citar o verbete

MORINAKA, Eliza Mitiyo. Jean Neel Karnoff. In: LITERATURA BRASILEIRA TRADUZIDA. Perfil de tradutores/as. Disponível em: https://literaturabrasiltraduzida.com.br/detalhe/102/. Acesso em: dia/mês/ano.

Referências bibliográficas

  • AYER, Jean. Always welcome! Always plenty! Appalachian heritage. University of North Carolina, v. 23, n. 3, Summer 1995, p. 39-43. Disponível em: DOI: https://doi.org/10.1353/aph.1995.0074. Acesso em: 18 nov. 2021.

    AYER, Jean. Button cottage: and other stories. Dissertação (Master in Fine Arts [Mestrado em Belas Artes]). Columbia University, Nova York, p. 165, 1991.

    AYER, Jean. Dead drunk. North Charleston: CreateSpace Independent Publishing Platform, 2013.

    AYER, Jean. Tales of Chinkapin Creek volume II. North Charleston: CreateSpace Independent Publishing Platform, 2012.

    AYER, Jean. Tales of Chinkapin Creek. Lexington: Chinkapin Publishers, 2011.

    BARNARD COLLEGE ALUMINAE MAGAZINE. New York, v. 36, n. 2. Natal de 1946.

    MORTARBOARD YEARBOOK. New York: Barnard College. Class of 1943.

    MORTARBOARD YEARBOOK. New York: Barnard College. Class of 1944.

    MORTARBOARD YEARBOOK. New York: Barnard College. Class of 1945.

    MORTARBOARD YEARBOOK. New York: Barnard College. Class of 1947.

    VERISSIMO, Erico. Consider the lilies of the field. Tradução Jean Neel Karnoff. Nova York: MacMillan Company, 1947.

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